O conceito de "Educação
para a Cidadania" varia segundo uma escala que se estende desde a
informação cívica até ao desenvolvimento de capacidades interventivas. Esta
diversidade traduz tanto a complexidade do universo conceptual da Educação para
a Cidadania como resulta também de desafios e tensões positivas na formação de
carácter humano (Pureza, 2001:21)
Atualmente existe uma
preocupação educativa que aponta para uma tensão entre a formação ética e
cívica. Contudo, nesta relação é necessário considerar que a educação cívica
não corresponde à formação moral, isto porque «nem todas as exigências cívicas
são exigências morais, nem o mundo moral acaba na dimensão cívica do homem»
(Martín, 1990 cit. Pureza, idem).
Assim, podemos referir que
estamos diante de dois domínios parcialmente sobrepostos e não perante duas
áreas distintas. Pois, educar para a cidadania implica que exista uma tensão
entre ética e política, sendo indispensável despertar os indivíduos para o
cumprimento das normas e alertá-los para a pressão dos factos. Ou seja, há uma
necessidade de informação moral e informação cívica, mas existe também
necessidade de formação cívica e de educação para os valores. No entanto, esta
formação exige, não só teorias fundamentadoras mas também estratégias de
operacionalidade dessas teorias, designadas por modalidades de formação, as
quais devem ser do conhecimento dos intervenientes neste campo do saber.
Referências Bibliográficas
Pureza J.
M. (2001). Educação para a Cidadania:
Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos – 2.
Edição: Ministério da Educação.
Participação
democrática
Educação cívica e
práticas de cidadania
A Educação tem como objetivo fazer com que as pessoas adiram a valores
comuns preparados no passado e não apenas reunir os indivíduos. Esta deve «responder à questão: viver
juntos, com que finalidades, para fazer o quê? e dar a cada um, ao longo de
toda a vida, a capacidade de participar, ativamente, num projeto de sociedade
(Delors, 1996:60).
Assim, o sistema
educativo tem como missão preparar cada indivíduo para um papel social, onde
este assume as suas responsabilidades como membro da coletividade em relação
aos outros.
Consequentemente, a
participação de cada indivíduo na sociedade deve ser preparada com base na apresentação
dos seus direitos e deveres, no sentido de desenvolver as suas competências
sociais e estimular o trabalho em equipa. Esta participação ativa, por sua vez,
tornou-se para a educação uma missão, uma vez que os princípios democráticos se
expandiram pelo mundo.
Desta forma, a
primeira intervenção é feita numa primeira instância pela escola básica, onde o
objetivo é apenas a aprendizagem do exercício do papel social, em função de
códigos estabelecidos, assumindo assim a responsabilidade de uma instrução
cívica concebida como uma "alfabetização política”.
No entanto, esta
instrução não pode ser descorada e considerada uma matéria como tantas outras.
Pois, não se trata de ensinar códigos rígidos ou preceitos como de doutrinas se
tratasse, mas sim, de fazer da escola um modelo de prática democrática que
oriente os indivíduos a compreender os seus direitos e deveres a partir de
problemas concretos, bem como o exercício da sua liberdade que é limitada pela
liberdade dos outros.
Por outro lado, a
educação para a cidadania e democracia não se limita ao espaço e tempo da
educação formal, sendo assim preciso implicar diretamente nela as famílias e os
outros membros da comunidade.
Porém, podemos
referir que desde sempre as sociedades estiveram expostas a conflitos que
colocaram em perigo a sua coesão, pondo em risco os projetos coletivos. Assim,
atualmente, temos que dar importância a um conjunto de fenómenos que ameaçaram
essa coesão e contribuíram para a crise aguda nas relações sociais.
Consequentemente,
uma primeira situação pretende-se com o agravamento das desigualdades, estando
ligado ao aumento da pobreza e da exclusão. Estas tratam-se de fraturas
profundas entre grupos sociais, quer no interior dos países desenvolvidos quer
nos países em desenvolvimento.
Nesta
perspetiva, «a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social realizada em
Copenhague de 6 a 12 de março de 1995 traçou um quadro alarmante da situação
social atual, recordando em particular que no mundo, mais de um bilhão de seres
humanos vivem numa pobreza abjeta, passando a maior parte deles fome todos os
dias, e que mais de 120 milhões de pessoas no mundo estão oficialmente no
desemprego e muitas mais ainda no subemprego» (Delors, 1996:52).
Por
outro lado, as migrações, o êxodo rural, o desmembramento das famílias, a
urbanização desordenada e a rutura das solidariedades tradicionais de
vizinhança, lançaram muitos grupos e indivíduos para o isolamento e para a
marginalização. Ora, a crise social associa-se à crise moral, vindo assim acompanhada
do desenvolvimento da violência e da criminalidade.
Desta
forma, os valores integradores são descorados, pondo em causa os conceitos de
nação e de democracia que são os fundamentos da coesão das sociedades modernas.
Face a esta situação, há
que reinventar o ideal democrático ou, pelo menos, dar-lhe nova vida.
Referências Bibliográficas
Delors J. et. al. (1996).
Educação um Tesouro a Descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre Educação para o século XXI. Unesco/Edições ASA.
O Papel da
Escola
A escola sempre teve um forte impacto na democratização
social e continuamente se esperou que esta ajudasse nesta tarefa. Pois, o
sistema educativo acolhe todas as crianças de todos os grupos sociais, tendo a
escola que lhes dar: «instrução, educação, socialização, qualificações e
títulos escolares» (Silva, s.d.:159).
No entanto, percebeu-se desde muito cedo que as crianças
chegavam à entrada do sistema escolar com muitas desigualdades e diferenças
entre elas, não sendo suficiente uma plataforma de promoção de democratização
social igual para todos. Assim, houve a necessidade de uma diferenciação
pedagógica para que fosse possível democratizar e sociabilizar de forma mais
eficiente.
Nesta perspetiva, toda a organização curricular da educação
escolar deverá ser orientada para a formação integral do indivíduo e para a
vivência da cidadania.
Por sua vez, o Ensino Secundário deve assumir um papel
determinante na Educação para a Cidadania dos seus alunos, ao sensibilizar os
jovens para as suas responsabilidades e os seus deveres como cidadãos, ao
fomentar atitudes de tomada de decisão democrática, tanto no interior como no
exterior da escola, ao promover uma dimensão europeia respeitadora das
identidades nacionais e regionais, bem como das minorias, num contexto mundial,
e ao transmitir valores comuns de respeito pelos direitos humanos(1).
Assim, podemos dizer que educar para a cidadania “é o
conjunto de práticas e atividades cuja finalidade é tornar os jovens e adultos
mais bem preparados para participar ativamente na vida democrática através da
assunção do exercício dos seus direitos e responsabilidades sociais”. No
entanto, esta distingue-se da educação cívica, na medida em que esta consiste
na "transmissão/aquisição num quadro educativo formal, do conhecimento,
das capacidades e dos valores que governam o funcionamento, a todos os níveis,
de uma sociedade democrática” (Birzea, 1996).
A educação tem tido a preocupação de se definir e justificar
socialmente, dando assim ênfase à vertente da «preparação dos jovens para a
vida ativa» (Silva, s.d.:181). Esta conceção vem contrariar a ideia de escola
de costas voltadas para a vida em geral, todavia corre o risco de sobrevalorizar
os conhecimentos e as competências em detrimento das atitudes e dos valores.
M. Zabalza (1992) cit. por Silva (s.d.:idem) assinala duas
grandes funções que a instituição educativa "deveria desenvolver": 1.
desenvolver a personalidade do sujeito (o que passaria por desenvolver ao
máximo as capacidades dos alunos, dotá-los de instrumentos recursos necessários
para assumirem um comportamento autónomo e responsável e serem capazes de
enfrentar os problemas com flexibilidade e espírito inovador; 2. estabelecer os
parâmetros de relação entre o sujeito e os outros (o que passaria pela
aprendizagem de valores, normas e regras de conduta inerentes à inserção dos
alunos numa cultura ou modo de pensar e agir de âmbito mais vasto, mas também
pela apropriação de capacidades expressivas e comunicativas próprias dos
processos que sustentam as relações interpessoais e sociais.
Estas características
resumem as finalidades desejáveis de uma educação escolar, tendo como objetivo
contribuir para a construção das identidades e dos projetos pessoais/sociais.
Referências Bibliográficas
(1) Recomendação n°R
(99) 2 do Comité dos Ministros dos Estados membros do Conselho da Europa
relativa ao Ensino Secundário.
Birzea , C (1996) Education for Democratic
Cilizenshp. Consultating Meeeting .General
Report.
Silva, A.
et. al. (s.d). Valores e Cidadania: a
Coesão Social, a Construção Identitária e o Diálogo Intercultural.
As
principais fragilidades da cidadania na idade adulta.
A
cidadania nas cidades-estado gregas consistia na participação na res publica (coisa pública) daqueles que
tinham direitos como: tomar parte no debate público, dar forma às leis e às
decisões de um Estado, participar no julgamento dos cidadãos e dos responsáveis.
Na
modernidade, os ideais democráticos e igualitários veiculados por diferentes movimentos
sociais foram progressivamente conduzindo ao alargamento dos poderes cívicos
para além de uma classe de cidadãos instruídos e proprietários (Pureza 2001:20).
Porém,
depois da consolidação dos Estados-nação da Europa e das Américas, a cidadania
civil passou a enfatizar a reciprocidade entre direitos e deveres, bem como o
respeito pela soberania da lei, sendo esta a condição necessária para a ordem
democrática. Assim, a cidadania política adquirida em democracia, deve ajudar
as pessoas a tornarem-se cidadãos ativos, intervenientes e responsáveis. Por
outro lado, a cidadania social revela que a segurança, bem-estar e qualidade de
vida devem ser garantidos numa primeira instância pelo Estado, mas providenciados
também por grupos e organizações da sociedade civil.
Não obstante,
atualmente vivemos num modelo de cidadania assente exclusivamente na
correspondência entre limites soberanos de cada Estado e direitos de cidadania,
tendo esta, por sua vez, de ser pensada, consagrada e praticada da escala local
à escala global. Desta forma, «os cidadãos ativos são tão políticos como
morais; a sensibilidade moral deriva em parte da compreensão política; e a
apatia política resulta em apatia moral» (David Hargreaves in Pureza, 2001:21).
Consequentemente,
uma das principais fragilidades da cidadania na idade adulta, está relacionada
com este aumento da apatia política e da indiferença ideológica. Pois, muitos
indivíduos deixaram de acreditar nos princípios fundamentais que caraterizam a
Cidadania, abandonando a própria Identidade. Isto porque, o cidadão deixou de ter
consciência de si mesmo como membro de uma comunidade com cultura democrática,
implicando responsabilidades, com direitos e obrigações, no sentido do bem
comum e da liberdade (Pureza,
2001:18). Este desinteresse acarreta graves consequências sociais, políticas e
económicas, tais como: o absentismo eleitoral massivo, xenofobia, racismo,
violência, intolerância, preconceito e até abusos de poder.
Porém, a cidadania é um elemento marcante de qualquer sociedade, tendo características
próprias e encontrando-se em constante construção. Esta evolui através da conquista
e ampliação dos direitos relativos a interesses coletivos e difusos, sendo
assim modificada e ampliada através da história.
Desta
forma, quando lemos o texto de Pureza temos a sensação que é atual, isto porque
os princípios da cidadania continuam a ser os mesmos atualmente, apenas nos
deparamos com a ampliação dos conceitos.
Por
outro lado, se considerarmos a teoria da história cíclica, teremos aqui uma
resposta a esta questão. Pois, esta teoria afirma que as forças humanas mais
relevantes acabam por motivar a ação humana a seguir uma ciclicidade, sendo
elas a religião, a política, a ciência, a filosofia, a curiosidade e a
criatividade. Assim, teríamos um tempo cíclico sem começo nem fim, repousando
numa permanente sequência de ciclos repetitivos. Isto significa que a história
não comporta nenhum facto singular, pelo contrário é marcada pela reedição de
acontecimentos passados, estando tudo condenado a girar eternamente na roda da
história.
Neste
sentido, quando analisamos a política, que foi a fragilidade que apontei no
post anterior, vemos que em todas as épocas existe uma descredibilização da
mesma e dos políticos. Pois, os cidadãos escolhem os seus representantes e aí
exercem o seu direito de cidadania, mas quando estes ficam seus representantes,
deixam de poder intervir, levando os indivíduos a deixar de acreditar em quem
elegeram. Pois, o elemento político tem apenas o direito de participar no
exercício do poder político, como um membro da autoridade política ou como
eleitor de tais membros (MARSHALL, 1967:63).
Não
obstante, a cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais
de uma comunidade. [...] Compreende a lealdade de homens livres, imbuídos de
direitos e protegidos por uma lei comum. O seu desenvolvimento é estimulado
tanto pela luta para adquirir tais direitos quanto pelo gozo dos mesmos, uma vez
adquiridos. (MARSHALL, 1967, 76 e 84). No entanto, apesar da cidadania se
pautar pelo princípio de igualdade, a classe social leva à desigualdade social,
sendo necessária, na medida que incentiva o esforço e determina a distribuição
de poder. Porém, essa desigualdade não se pode tornar excessiva, pois todos os
homens são iguais em status, embora não o sejam em poder.
Consequentemente,
não basta a constituição de direitos e garantias, é necessário, também, que se
apresente uma solução para concretização desses direitos, criando mecanismos de
reivindicação. Pois, a cidadania deve ser garantida e exercitada, por isso
mostra-se importante educar para a cidadania, possibilitando o acesso amplo e
viável aos meios para o seu pleno exercício.
Vivemos a
crise de um modelo de cidadania assente exclusivamente na correspondência entre
limites soberanos de cada Estado e direitos de cidadania. Esta tem que ser hoje
pensada, consagrada e praticada em horizontes de múltiplas pertenças e
identidades, da escala local à escala global. Disso nos dá conta a vulgarização
de expressões e conceitos como a "cidadania europeia" ou
"cidadania global". Na educação para a cidadania cruzam-se, por isso,
preocupações de formação individual e grupal, nacionais, europeias e globais, apelando
a uma constante busca de equilíbrio entre os valores de proximidade e a
responsabilização e participação de carácter não só transnacional como
intergeracional.
Ao
assistir-se na atualidade a uma crise de cidadania, tal facto, deverá ser objeto
de reflexão à escala planetária. É emergente que esta reflexão/ação tenha como
raízes: o seio familiar, passando pela pré-escola, escola, a nível nacional,
bem como na globalidade. Como tal, só desta forma, poderemos incutir valores
éticos e morais na criança, desde precoce idade, transmitindo-lhe uma educação
válida e positiva conduzindo à construção de uma verdadeira cidadania
democrática. Esses valores são a tolerância, a solidariedade a honestidade
entre outros.
Nesta
era de globalização e de mobilidade humana, um número crescente de crianças imigrantes
terá múltiplas pertenças e cidadanias, aspeto que contribuiu para a fragilidade
da cidadania. Assim, a coexistência de cidadãos com dupla nacionalidade é um
desafio não só importante e estimulante para a educação como também uma oportunidade
de aprendizagem e aquisição de competências sociais de gestão de diversidade
cultural e social.
Consequentemente,
a educação para a cidadania fica com responsabilidades específicas junto destes
cidadãos com dupla nacionalidade, devendo ajudá-los a exercer uma cidadania ativa.
Isto porque, como refere Araújo (2008:12) a escola deve ter um papel importante
na promoção de uma cidadania inclusiva, indo ao encontro das diferentes
necessidades educativas dos cidadãos, respondendo com flexibilidade e
desenvolvendo a riqueza do seu capital cultural múltiplo.
Neste
sentido, a escola apresenta-se para os cidadãos imigrantes como um espaço de
contacto e de integração na sociedade de acolhimento, bem como um instrumento
de mobilidade social e de aquisição de competências interculturais,
contribuindo para a coesão social. Todavia, para que a escola sirva de elo de
ligação à sociedade de acolhimento, é necessário a criação dos meios que
possibilitem a adequação da instituição escolar à realidade multicultural.
Pois, caso não aconteça esta adaptação poderá existir um aumento da
marginalização e um consequente aumento da criminalidade.
Porém,
como menciona Araújo (2008:13) em Portugal, ao nível institucional, várias
medidas têm sido promovidas para fazer face à diversidade cultural e
linguística, nomeadamente no sistema escolar. A legislação atual na União
Europeia visa assegurar que os filhos de imigrantes tenham acesso à educação
nas mesmas condições que os nacionais de qualquer país membro da União. Também
no que respeita à educação das crianças migrantes, o Conselho da Europa recomenda
aos Estados dos países de imigração que facilitem o ensino da língua nacional e
avancem no sentido de lhes permitir a aprendizagem da sua língua materna.
Assim, Callon, Lascoumes e Barthe defendem que a necessidade imperiosa de
"democratizar a democracia" é sempre um horizonte inatingível a um
trabalho inacabado, realçando que uma das fragilidades da democracia é a sua
implementação acabar por produzir efeitos contrários aos propostos inicialmente.
Neste contexto, Lima (2005:76) refere que «a democracia e a participação seriam
tão indispensáveis à concretização de uma educação democrática quanto a
educação democrática seria indispensável à realização da democracia e da
participação»
Referências Bibliográficas
Araújo, Sónia (2008). Contributos para uma Educação para a cidadania: Professores e Alunos em Contexto Intercultural. Teses 17. Lisboa: Acidi.
Lima, L. (2005).
Cidadania e educação: adaptação ao mercado competitivo ou participação na
democratização da democracia. Educação, Sociedade e Culturas, nº 23,
71-90.
MARSHALL,
Thomas Humphrey. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar,
1967.
Pureza J. M. (2001). Educação para a Cidadania: Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos – 2. Edição: Ministério da Educação