O memorando sobre
Aprendizagem ao Longo da Vida define que esta é “toda a atividade de
aprendizagem em qualquer momento da vida, com o objetivo de melhorar os
conhecimentos, as aptidões e competências, no quadro de uma perspetiva pessoal,
cívica, social e/ou relacionada com o emprego” (Sitoe, 2006:284).
Segundo Fieldhouse, (1999, cit. por Quintas, 2008:17), o conceito aprendizagem ao longo da vida é utilizado
para “cobrir todas as formas de educação pós-obrigatória, incluindo a educação
familiar, a educação comunitária, a educação e formação de adultos tradicional,
a educação pós-escolar e superior e a formação profissional e contínua”.
Não se tratando assim de uma
expressão técnica ou legal com um significado preciso mas como um termo
cultural que denuncia um novo paradigma, sugerindo uma mudança de significado
da educação dispensada por um organismo, versus uma aprendizagem
individualizada, e dá grande ênfase à experiência de aprendizagem individual,
fornecendo uma responsabilidade reduzida ao formador.
O conceito de ALV surge na década de 1970 com Paul Lengrand, quando reafirma a necessidade de cada indivíduo apender ao longo da sua vida quer em contexto formal ou informal, sendo este responsabilizado pelo seu próprio percurso educativo. Contudo, as novas exigências e as transformações do mercado de trabalho fazem com que a ALV esteja associada ao desemprego, à competitividade e à economia global.
Na definição formulada a partir da
Conferência de Hamburgo, (1997, cit. por Quintas, 2008:20), a educação e formação
de adultos é considerada como o “conjunto de processos de aprendizagem, formal
e não formal, graças ao qual as pessoas consideradas adultas pela sociedade a
que pertencem desenvolvem as suas capacidades, enriquecem os seus conhecimentos
e melhoram as suas qualificações técnicas ou profissionais ou as orientam de
modo a satisfazerem as suas próprias necessidades e as da sociedade”.
Para Federighi e Melo, (1999, cit. por
Quintas, 2008:20), a educação e formação de adultos “refere-se ao fenómeno
derivado da integração de teorias, estratégias, orientações e modelos
organizacionais com o objetivo de interpretar, dirigir e administrar os
processos de instrução individuais e coletivos ao longo de toda a vida”.O conceito de ALV surge na década de 1970 com Paul Lengrand, quando reafirma a necessidade de cada indivíduo apender ao longo da sua vida quer em contexto formal ou informal, sendo este responsabilizado pelo seu próprio percurso educativo. Contudo, as novas exigências e as transformações do mercado de trabalho fazem com que a ALV esteja associada ao desemprego, à competitividade e à economia global.
Assim, a aprendizagem ao
logo da vida é não só um instrumento de realização pessoal e aquisição da
capacidade de exercer direitos de cidadania, como também serve a realização de
objetivos económicos.
A União Europeia tem tido um
papel de promoção da ALV no trabalho qualificante, abrangendo toda a atividade
quer formal ou informal com o objetivo de melhorar os conhecimentos, as
competências e as qualificações. Assim, segundo Eurydice (in Távora, 2012:30) a
ALV caracteriza-se pelos seguintes elementos:
- O indivíduo aprende ao longo de toda a vida;
- Estão envolvidas nesse processo uma gama de competências, gerais, profissionais e pessoais;
- Tanto os sistemas formais de educação e formação como as atividades não formais organizadas fora desses sistemas têm um papel a desempenhar no âmbito da cooperação entre os setores público e privado, especialmente a nível da educação de adultos;
- É colocada a tónica na necessidade de proporcionar uma base sólida durante o ensino básico e despertar no indivíduo o gosto e a motivação para aprender.
Neste sentido, António Nóvoa
(in Távora, 2012 :31) refere que a educação e formação de adultos rege‑se
por os princípios orientadores seguintes:
- O adulto em situação de formação é portador de uma história de vida e de uma experiência profissional;
- A formação é sempre um processo de transformação individual, na tripla dimensão do saber: conhecimentos; capacidades e atitudes.
- A formação é sempre um processo de mudança institucional, devendo desenvolver-se um contrato de formação entre as partes (equipas de formação, formandos e instituições);
- A formação não é ensinar às pessoas determinados conteúdos, mas sim trabalhar coletivamente em torno da resolução de problemas;
- A formação deve desenvolver nos formandos as competências necessárias para mobilizarem em situações concretas os recursos teóricos e técnicos adquiridos durante a formação.
Em Portugal, o conceito de
aprendizagem ao longo da vida (ALV) é interpretado com duplo sentido: como um
processo educativo e formativo; e como um quadro global de referência para o desenvolvimento
do sistema educativo. O primeiro refere-se ao tempo de vida dos sujeitos desde
a nascença até à morte. O segundo está associado à evolução da economia e da
sociedade portuguesa.
Na década de 1980, a OCDE
referiu que a formação de base relativa à formação de adultos era débil, onde a
média nacional de analfabetismo literal seria de 9%.
Assim, segundo Lima (in
Távora, 2012:32) «seria necessário que as políticas públicas de educação
assumissem que o problema crucial a atacar (...) é muito mais complexo e
difícil de superar: é o problema de políticas educativas para o controlo
social».
Nesta perspetiva, a educação
de adultos e do associativismo tendem a ser objeto de desvalorização e
marginalização por parte das orientações políticas dominantes, visto que a
responsabilidade da alfabetização dos adultos é do governo.
Para concluir podemos dizer
que, a educação está inserida no campo dos bens económicos, individualmente
administráveis. É neste sentido que a expressão "Educação ao Longo da
Vida", cuja origem está nas preocupações da Unesco e do movimento de
Educação Permanente, tem vindo a ser substituída por Aprendizagem ao Longo da
Vida.
Referências Bibliográficas
Callon, M., Lascoumes, P.
& Barthe, Y. (2001). Agir dans un
monde incertain. Essai sur la démocratie technique. Paris: Le Seuil.
Lima, L. (2005). Cidadania e educação: adaptação ao mercado
competitivo ou participação na democratização da democracia. Educação,
Sociedade e Culturas, nº 23, 71-90.
Sitoe, Reginaldo (2006). Aprendizagem ao Longo da Vida: Um conceito
utópico? Lisboa: Instituto Superior de Psicologia Aplicada
Quintas, H. (2008). Educação de Adultos vida no currículo e
currículo na vida. Lisboa: Agência Nacional para a Qualificação, I.P.
Távora, A; Vaz, H. &
Coimbra, J. (2012). A(s) crise(s) da
educação e formação de adultos em Portugal. Saber & Educar, 17, 28-40
Terrasêca, M.; Caramelo, J.
y Medina, T.(2011). Análise de Discursos
Europeus sobre Educação e Formação de Adultos e Aprendizagem ao Longo da Vida.
A andragogia
A introdução do conceito de andragogia
no domínio da educação e formação de adultos remonta aos anos 60. Embora tenha
sido o alemão Alexandre Kapps quem o utilizou pela primeira vez em 1833
(Rachal, 2002), Knowles (1975) é o seu intérprete mais conhecido (Quintas,
2008:23).
Andragogia é a arte ou ciência de
orientar adultos a aprender, segundo a definição creditada a Malcolm Knowles,
no artigo intitulado «Andragogy, not Pedagogy» publicado em 1967.
A andragogia constitui um modelo de
educação de adultos a ter em consideração na prática educativa, em
contraposição à pedagogia, que se refere à educação de crianças (do grego
paidós, criança).
O professor tradicional passou a ser
um facilitador de aprendizagem que está sempre presente no processo de
aprendizagem e possui elevadas responsabilidades de orientação e facilitação
deste processo. Por outro lado, o aprendente adulto é considerado como alguém
responsável, ativo, participante e internamente motivado para a realização de
aprendizagens.
Knowles condensou os principais
pressupostos da andragogia e contrastou-os com os pressupostos pedagógicos.
Através deste contraste, o autor procurou salientar a inadequação da ideologia
pedagógica na lide com adultos e a necessidade de implementar um modelo
inovador e mais pragmático. Contudo, a aproximação das duas perspetivas que
Knowles opera não se baseia na aceitação da pedagogia como um modelo adequado
em determinadas circunstâncias, mas na suposição de que o modelo andragógico
engloba o modelo pedagógico e que, por isso, os adultos podem encetar
aprendizagens tendo por base este modelo, mas com o propósito de evoluir para a
utilização do modelo andragógico.
Desta forma, podemos dizer que a
distinção entre a atuação de um pedagogo e um andragogo resulta da aplicação do
método pedagógico, enquanto que o pedagogo o aplica escrupulosamente, o
andragogo procura que os aprendentes se responsabilizem, progressivamente,
pelas suas próprias aprendizagens.
Com efeito, este modelo baseia-se em
cinco premissas de base acerca das características dos aprendentes adultos, que
os diferenciam das crianças, a saber os adultos:
a) necessitam de saber o motivo pelo
qual devem realizar certas aprendizagens;
b) aprendem melhor experimentalmente;
c) concebem a aprendizagem como
resolução de problemas;
d) aprendem melhor quando o tópico
possui valor imediato e os motivadores mais potentes para a aprendizagem são
internos.
Consequentemente, para que haja
aprendizagem é necessário estabelecer um clima propício. Isto porque, os
adultos, quando receosos ou ansiosos, inibem-se de se exprimirem. Desta forma,
só aprenderão com profundidade se sentirem que as suas diferenças são
respeitadas, que os seus erros não serão alvo de comentários e que a
colaboração é incentivada. Igualmente, a motivação dos estudantes deve ser
encorajada, bem como as relações de suporte interpessoal e de participação
interativa, promovendo‑se
desta maneira a autoestima do aprendente.
Segundo Knowles, o estabelecimento do
clima é um dos elementos mais importantes, pois se um facilitador e os
aprendentes não atingirem um clima positivo, as aprendizagens não serão
facilitadas e o sucesso do trabalho, que iniciaram em conjunto, encontra-se
seriamente comprometido.
Contudo, o aprendente tem que ter uma
responsabilização progressiva nas suas aprendizagens, daí a importância de
estabelecer um contrato de aprendizagem, onde ele é subtilmente desafiado a
pensar porque é que pretende aprender algo. Este contrato envolve o estudante
na tomada de decisões acerca do que irá ser aprendido, como será aprendido,
quando, e na avaliação das aprendizagens, fomentando a autodireção do
aprendente bem como a sua autoestima.
Podemos ainda acrescentar que, o
facilitador de aprendizagem e o aprendente têm responsabilidades no processo
educativo:
O facilitador de aprendizagem deve ter
em conta que os adultos são muito diferentes entre si e que são capazes de
aprender. Daqui retira-se o argumento de que na educação de adultos o
facilitador não pode ser um mero transmissor de conhecimentos, pois é da sua
responsabilidade a adequação das aprendizagens aos alunos, assim como
contribuir para o desenvolvimento da autodireção das aprendizagens. Este
facilitador deve envolver os aprendentes no seu processo de aprendizagem,
ajudando-os a formular os seus próprios objetivos de aprendizagem, pois os
adultos nem sempre conseguem identificar as suas necessidades de aprendizagem,
nem conhecem os recursos e materiais a que podem recorrer.
O aprendente, por sua vez, deve
perceber os objetivos de aprendizagem que foram traçados como sendo seus e
elaborar um plano prévio das aprendizagens que pretende efetuar. Deve, ainda,
procurar estar envolvido nas tomadas de decisão relativas às diversas opções,
sem esquecer que as aprendizagens efetuadas devem possuir um sentido de
progresso face aos objetivos estabelecidos, culminando com a aplicação de
procedimento de autoavaliação.
Todavia, o desânimo face às novas
aprendizagens é algo frequente na população adulta e, em todos estes problemas,
o facilitador deve ter respostas a dar, conselhos, críticas ou simplesmente
tempo para ouvir o aprendente e debater com ele o evoluir do processo.
Por último, o facilitador de
aprendizagem não deve usar símbolos que associam a situação de aprendizagem
atual com as situações de aprendizagem dos adultos quando eram crianças, de
forma a não promover sensações agradáveis. O facilitador deve procurar
assumir-se num patamar simétrico ao do aprendente.
Assim, e face ao exposto, considera-se
que a andragogia constitui um modelo de educação de adultos, claramente mais
adequado a esses estudantes que a pedagogia tradicional e pode ser aplicado
numa grande variedade de atividades educativas. Por sua vez, o facilitador de
aprendizagem é uma entidade sempre presente e com elevadas responsabilidades,
sendo o seu auxílio diferente do tradicional; tal como indica o célebre
provérbio chinês “não lhes dá o peixe, ensina-os a pescar”.
Referências Bibliográficas
Canário, R. (1999). Educação de Adultos: um campo e uma
problemática. Lisboa: Educa.
Nogueira, S. M. (2004). A andragogia: Que contributos para a prática
educativa? Revista Linhas.
Osório, A (2003). Educação Permanente e Educação de Adultos. Lisboa: Horizontes
Pedagógicos.
Quintas, H. (2008). Educação de Adultos vida no currículo e
currículo na vida. Lisboa: Agência Nacional para a Qualificação, I.P.
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