A aprendizagem de adultos é compreendida
atualmente numa perspetiva mais globalizante, integrando a dimensão
sociocultural e não apenas psicológica. Sendo esta aprendizagem elaborada ao
"longo da vida", «noção que significa um alargamento das dimensões
temporal e espacial da aprendizagem, da educação e da formação. O fenómeno da aprendizagem
ao longo da vida não é um resultado da sociedade contemporânea, mas a sua
importância é cada vez mais valorizada num contexto sujeito a rápidas mudanças,
à incerteza e à imprevisibilidade» (Pires, 2002:10). Desta forma, ao
adotarmos o conceito “Educação e Formação ao Longo da Vida”, temos subjacente a
nossa própria visão do processo de desenvolvimento da pessoa, quer ao nível da
aquisição de conhecimentos, de competências e de capacidades para a vida:
pessoais, sociais, profissionais, cívicos e éticos.
Nesta perspetiva, o Livro Branco (livro,
lançado pela Comissão Europeia em finais de 1995, faz parte de uma linha de
ação comunitária com vista à análise e definição de linhas orientadoras no
campo da educação e da formação), procura sintetizar as principais questões que
atualmente se colocam aos sistemas de educação/formação, e apresenta algumas
propostas respeitantes a iniciativas a desenvolver no contexto
comunitário. Assim, procura por um lado identificar os desafios emergentes
no domínio da educação/formação, no contexto europeu, e, por outro, delinear
orientações e linhas de ação que contribuam para o desenvolvimento da qualidade
destes sistemas. Destaca, ainda, a importância que a educação/formação
detêm no plano económico, no acesso ao emprego e na manutenção da
empregabilidade, no combate ao desemprego e à exclusão social e na promoção da
igualdade de oportunidades, realçando o papel que a educação e a formação
desempenham na “identificação, integração, promoção social e realização
pessoal” dos cidadãos europeus, procurando conciliar a perspetiva da inserção
social, da empregabilidade e da realização pessoal (Pires, 2002:51).
Não obstante, a Educação/Formação de
Adultos deve considerar uma perspetiva que englobe por um lado os saberes e
competências adquiridas ao longo da vida do adulto e por outro que haja lugar
para novas aprendizagens e competências em contexto formativo. Pois, só dessa
forma será possível requalificar adultos para uma nova inserção no mercado de
trabalho, face aos novos desafios da sociedade europeia.
Os novos desafios que emergem são: o
advento da sociedade da informação, que é entendida como uma nova revolução
industrial; a mundialização da economia e o aumento da competitividade a nível
mundial; a rápida evolução científica e tecnológica, e a cultura da inovação
daí decorrente, que vem reforçar a necessidade da educação/formação e
promoverem o desenvolvimento de uma cultura científica e técnica, e de uma
postura ética fundamentada na responsabilidade. Face a estes desafios, «as
respostas preconizadas pelo Livro Branco em matéria de educação/formação dizem
respeito à promoção do “acesso à cultura geral” e ao “desenvolvimento da
aptidão para o emprego e para a atividade”; a finalidade da formação é
entendida de forma a “desenvolver a autonomia da pessoa e a sua capacidade
profissional”, procurando conciliar as vertentes do desenvolvimento pessoal e
profissional» (Pires, 2002:51).
Assim, o papel da educação e formação no
desenvolvimento da aptidão para o emprego é identificar as capacidades
necessárias, isto é, conhecimentos sólidos de base, competências técnicas e
aptidões sociais. Por sua vez, estas capacidades podem ser adquiridas e
desenvolvidas em diferentes espaços: no sistema formal de educação/formação,
nomeadamente os conhecimentos de base e línguas; na empresa,
principalmente os conhecimentos técnicos e aptidões pessoais; e noutros espaços
sociais, como a família e a comunidade.
No que diz respeito à “via moderna”, do
reconhecimento e validação das competências adquiridas pelas pessoas em
contextos de educação/formação que não os formais, o Livro Branco sugere a
criação de um “cartão pessoal de competências”, no qual é possível registar as
competências ou os conhecimentos fundamentais como as línguas e a informática,
entre outros e, ainda, os conhecimentos técnicos já sujeitos a avaliação
interna nas empresas. Para tal seria necessário implementar um sistema de
acreditação facultativo, acessível em todo o espaço europeu, e que se
constituísse como uma via complementar de aquisição do diploma. respostas em
curso no âmbito dos estados-membros. (Pires, 2002:53).
Assim, o conceito de aprendizagem ao
longo da vida é entendido como toda a atividade de aprendizagem em qualquer
momento da vida, com o objetivo de melhorar os conhecimentos, as aptidões e as
competências, no quadro de uma perspetiva pessoal, cívica, e/ou relacionada com
o emprego. Sendo, a aprendizagem ao longo da vida perspetivada como um processo
“contínuo ininterrupto”, que considera por um lado a dimensão temporal da aprendizagem
(lifelong) e, por outro, a multiplicidade de espaços e contextos de
aprendizagem (lifewide).
Neste sentido, os conceitos de
aprendizagem formal, não-formal e informal aparecem caracterizados da seguinte
forma: aprendizagem formal, que se desenvolve em instituições de ensino e
formação, conduzindo à aquisição dos diplomas e das qualificações; aprendizagem
não-formal, que decorre de ações desenvolvidas no exterior dos sistemas
formais, tais como no trabalho, na comunidade, na vida associativa, etc., e que
não conduzem necessariamente à certificação; e aprendizagem informal,
resultante das situações mais amplas de vida, e que frequentemente não é
reconhecida individual e socialmente (Pires, 2002:55).
Perante a necessidade das pessoas e das
sociedades precisarem de mais educação, o Memorando sobre a Aprendizagem ao
Longo da Vida (documento elaborado pela Comissão Europeia com vista à
implementação de uma “estratégia de aprendizagem ao longo da vida), vem
reforçar a necessidade de adotar uma ação concertada face às atuais mudanças
económicas e sociais, através de uma nova abordagem da educação e da
formação. Desta forma, a aprendizagem ao longo da vida é entendida como
toda e qualquer atividade de aprendizagem contínua, que visa melhorar
conhecimentos, aptidões e competências, sendo os seus principais objetivos, a
promoção da cidadania e o fomento da empregabilidade. Por sua vez, a
aprendizagem ao longo da vida é entendida como uma prioridade política
europeia, sendo expressa a preocupação de alcançar um crescimento económico
dinâmico, reforçando simultaneamente a coesão social (Pires, 2002:55).
O Memorando também reforça a necessidade
de criar parcerias e uma estreita cooperação (entre ministérios, autoridades
públicas, parceiros sociais, iniciativa privada, etc.), com vista à
implementação de uma estratégia de aprendizagem ao longo da vida, criando uma
“osmose gradual entre estruturas de oferta” (Pires, 2002:56). Este desafio é
colocado aos sistemas formais de educação/formação, que tradicionalmente eram fechados,
e que sempre manifestaram dificuldade ao nível do reconhecimento e integração
das aprendizagens realizadas noutros contextos que não os formais.
Face ao exposto, é necessário um esforço
acrescido de mudança, o que pode pôr em causa, por um lado o estatuto dos
saberes (saberes científicos, académicos, profissionais, experienciais) e por
outro a relação das pessoas com o saber (saberes construídos, saberes
transmitidos).
As mensagens-chave do Memorando:
1. “Novas competências básicas para
todos
Objetivo: garantir o acesso universal e
contínuo à aprendizagem, com vista à aquisição e renovação das competências
necessárias à participação sustentada na sociedade do conhecimento”.
2. “Mais investimento em recursos
humanos
Objetivo: aumentar visivelmente os
níveis de investimento em recursos humanos, de modo a dar prioridade ao mais
importante trunfo da europa – os seus cidadãos”.
3. “Inovação no ensino e na aprendizagem
Objetivo: desenvolver métodos de ensino
e aprendizagem eficazes para uma oferta contínua de aprendizagem ao longo e em
todos os domínios da vida”.
4. “Valorizar a aprendizagem
Objetivo: melhorar significativamente a
forma como são entendidos e avaliados a participação e os resultados da
aprendizagem, em especial a aprendizagem não-formal e informal”.
5. “Repensar as ações de orientação e de
consultoria
Objetivo: Assegurar o acesso facilitado
de todos a informações e aconselhamento de qualidade sobre oportunidades de
aprendizagem em toda a Europa e durante toda a vida”.
6. “Aproximar a aprendizagem dos
indivíduos
Objetivo: providenciar oportunidades de
aprendizagem ao longo da vida tão próximas quanto possível dos aprendentes, nas
suas próprias comunidades e ainda se necessário apoiadas em estruturas TIC”.
Notas Bibliográficas
PIRES, L. (2002). Educação e formação ao longo da vida:
análise crítica dos sistemas e dispositivos de reconhecimento e validação de
aprendizagens e de competências. Lisboa: Universidade
Nova de Lisboa.
Sem comentários:
Enviar um comentário