Entre 1995 e
2002, os governos socialistas eleitos avançaram com um conjunto de propostas
que visaram “relançar a política de educação de adultos” (Guimarães, s.d.).
Nesta perspetiva, em 1998, o governo decide lançar o
programa “S@ber +" para o desenvolvimento da educação e formação de adultos,
criando a ANEFA, com o objetivo de uma articulação entre educação e formação.
Embora a ANEFA tivesse como princípio a mediação entre a tutela e a sociedade
civil, esta não intervinha no terreno e na multiplicidade de áreas inicialmente
pensadas. Além disso, não demonstrou capacidades de assegurar o relançamento da
educação e formação de adultos em Portugal.
Assim, devido à insuficiência e à ineficácia
das políticas de educação de adultos, a situação portuguesa exigia uma
intervenção inovadora e eficaz (Melo, Matos & Silva, 1999 in Guimarães, s.d.).
Não obstante, na última década, a política educativa
tem vindo a assumir o objetivo da igualdade de oportunidades na sociedade
portuguesa quer pelo alargamento dos anos de escolaridade do ensino básico e
secundário, quer pelo recurso a modalidades diversificadas ao nível do ensino
secundário, quer ainda pela expansão do ensino superior e pelo recurso
sistemático a modalidades específicas de educação e formação dirigidas a
adultos.
No entanto, constatou-se um problema de
subcertificação da população adulta que justificou o reforço da oferta de
educação e formação de adultos, bem como o alargamento das oportunidades de
obtenção de certificações escolares e profissionais por via formal, sendo
alargada a todos os cidadãos, em particular aos adultos menos escolarizados e
aos ativos empregados e desempregados.
As preocupações com a formação integral do ser humano
nos discursos da Educação Permanente foram substituídos por preocupações de
natureza tecnocrática e economicista, associadas ao aumento da produtividade e
empregabilidade, culminando com uma mudança de paradigma. Pois, atualmente,
cada ser humano deve tornar-se num empreendedor, capaz de negociar o seu
próprio capital e criar o seu próprio negócio, convertendo-se num ser
competente ao invés de um mero negociador coletivo.
Assim,
estamos
perante uma transformação da noção de cidadania, que surge "amputada de
direitos sociais e culturais" (Lima, 2005:74).
Porém, o trabalho aparece associado às ideias de
empregabilidade e de espírito empresarial/empreendorismo. Em Portugal, o
direito ao trabalho é um direito constitucionalmente consignado, que se
transforma numa luta individual pelo trabalho, tendo as questões do emprego
deixadas de ser consideradas problemas sociais para passarem a ser problemas
individuais, cabendo a cada um responsabilizar-se pela sua situação face ao
emprego/desemprego.
Nesta perspetiva, a educação e formação surge com
funções essenciais como: relançar o crescimento; restaurar a competitividade; e
restabelecer um elevado nível de emprego. No entanto, não é a formação que cria
empregos, mas esta pode constituir uma vantagem individual competitiva na
obtenção do emprego.
Atualmente, em Portugal os incentivos sociais à
aprendizagem ao longo da vida, foram impulsionados em Março de 2000, quando a
União Europeia, no Conselho Europeu de Lisboa, fixou o objetivo de constituir,
até 2010, uma economia baseada no conhecimento, mais dinâmica e competitiva do
mundo, de forma a garantir um crescimento económico sustentável, com mais e
melhores empregos e com maior coesão social. Com a criação da "Estratégia
de Lisboa", estabeleceram-se áreas prioritárias nomeadamente a educação e
a formação.
Em 2002, com o "Processo de Copenhaga"
iniciou-se o programa "Educação e Formação 2010". A nível europeu
foram desenvolvidas várias ferramentas, como por exemplo, o Europass, o Quadro
Europeu de Qualificações (EQF), entre outros. Ainda no mesmo ano, através do
"Comunicado de Burges" foram criados Sistemas de Educação e Formação
Profissional, também a nível europeu.
A nível nacional, com o D. Lei n.º 396/2007, foi
criado o Sistema Nacional de Qualificações (SNC) de forma a promover a
articulação entre a formação profissional inserida quer no Sistema Educativo
quer no mercado de trabalho. A partir deste, a obtenção de uma qualificação
poderia ser feita através do Catálogo Nacional de Qualificações
(www.catalogo.anqep.gov.pt), de processos de RVCC ou de Reconhecimento de Títulos
obtidos em outros países. Foi também criada uma vasta rede de Entidades
Formadoras, tais como, a Agência Nacional para as Qualificações; Centros de
Novas Oportunidades; Centros de Formação Profissional e de Reabilitação
profissional de Gestão direta e participada, Estabelecimentos de Ensino
Públicos, entre outras.
Desde
2005, a Iniciativa Novas Oportunidades, retomou as principais ofertas do
Programa "S@ber+", sendo hoje estas ofertas da responsabilidade da
Agência Nacional para a Qualificação que possui uma dupla tutela do Ministério
da Educação e do Ministério do Trabalho e Segurança Social.
Estas
iniciativas são importantes para a população portuguesa, pois tem como
finalidade dar um forte impulso à qualificação dos indivíduos, sendo dirigidas
aos jovens e aos adultos.
Relativamente
às ofertas dirigidas aos adultos, podemos dizer que têm como objetivos permitir
que os mesmos recuperem, completem e progridam nos seus estudos, partindo dos
conhecimentos e competências que foram adquirindo ao longo da vida em contextos
informais. Este processo é feito através do Reconhecimento, Validação e
Certificação de Competências; que, simultaneamente, orienta os adultos para
ofertas complementares de cariz profissionalizante, de forma a poder
integrá-los novamente no mercado de trabalho.
Desta
forma, o reconhecimento, validação e certificação de competências assume uma
importância significativa, dado que surge como uma alternativa à formação
profissional qualificante e de curta duração. Esta importância
é justificada pelo facto de «o reconhecimento das competências adquiridas
[permitir], a nível coletivo, estruturar percursos de formação complementares
ajustados caso-a-caso. Mas mais importante, induz o reconhecimento individual
da capacidade de aprender, o que constitui o principal mote para a adoção de
posturas pró-ativas face à procura de novas qualificações». (Ministério da
Educação e Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, 2005: 20 in Guimarães, s.d.).
Neste sentido, podemos dizer que «o trabalho realizado
até ao momento pela Agência Nacional para a Qualificação e, mais
especificamente, pelos Centros Novas Oportunidades é visto por muitos como
positivo. Pois, os resultados obtidos em 2007 apontavam para mais de 250.000
jovens e adultos inseridos em ofertas da Iniciativa Novas Oportunidades, de
entre os quais mais de 90.000 adultos. Estes tinham sobretudo idades
compreendidas entre os 25 e 44 anos (cerca de 66%), muitos destes empregados
(cerca de 70%), sendo a distribuição entre sexos mais favorável às mulheres.
Mais de 55.000 encontravam-se em processos de Reconhecimento, Validação e
Certificação de Competências e mais de 18.000 frequentam Cursos de Educação e
Formação de Adultos (Ministério da Educação e Ministério do Trabalho e da
Solidariedade Social, 2007 in
Guimarães, s.d.).
Em suma, estas iniciativas vieram atribuir um relevante alento à política pública de educação e formação
de adultos, contribuindo para a modernização da economia portuguesa no contexto
da União Europeia, aumentando os níveis de escolarização da população
portuguesa, prevenindo e combatendo também a exclusão social e as crescentes
desigualdades sociais.
Notas Bibliográficas
Guimarães, P. (s.d.). Políticas públicas de educação de adultos em Portugal: diversos
sentidos para o direito à educação? Braga: Universidade do Minho.
Lima, L. (2005). Cidadania e educação: adaptação ao
mercado competitivo ou participação na democratização da democracia. Educação,
Sociedade e Culturas, nº 23, 71-90.
Trajetórias
possíveis para a Educação de Adultos
A sociedade
atual está inserida num contexto de mudança. Porém, o processo
de mudança não implica meramente uma sucessão de inovações, mas sim o
estabelecimento de uma cultura de mudança, isto é, o desenvolvimento da
capacidade de inovar (Fullan, 2003:39).
Quintana, (1991,
1995) in Loureiro, (2008:225), afirma
que a educação de adultos, segundo a atual tendência mundial, é apontada como
um instrumento de desenvolvimento das comunidades locais e de capacitação dos
indivíduos para promoverem-se em comunidade.
Assim, os professores e os formadores estão
inseridos num contexto grande exigência, com uma configuração múltipla de novas
missões, funções e papéis. Consequentemente, o enquadramento político da
profissão deixou de ser de âmbito nacional e passou a ser europeu, sendo os
objetivos claros e transversais. Desta forma, para que fosse possível a
concretização desta estratégia visada pela sociedade do conhecimento foi criado
o Quadro Europeu Comum que refere as competências e qualificações dos
professores e formadores e que põe a aprendizagem ao longo da vida como estratégia
para o seu sucesso. Este quadro europeu comum tem como objetivo central,
aumentar a qualidade da formação e a capacidade de inovação, contribuindo para
uma sociedade mais competitiva e dinâmica baseada no conhecimento do mundo,
capaz de um crescimento económico apoiado em melhores empregos e melhor coesão
social.
Efetivamente, a formação profissional e a
aprendizagem ao longo da vida revestem-se de uma grande importância porque além
de formar as pessoas para uma atividade profissional, atualiza-as em termos de
profissões prioritárias e emergentes, dando-lhes competências para exercerem
essas novas profissões e até criarem o seu próprio emprego, tornando-se assim
empreendedores, de modo a fazerem face às exigências da sociedade do
conhecimento. Pois, como refere Coutinho (2007) os trabalhadores necessitam de
vender a sua força de trabalho sob condições que lhes são determinadas pelo
capital. Por outro lado, as mudanças nas formas de emprego e o desemprego
estrutural, entre outras, trazem exigências de novas competências, habilidades
e talentos para se manter empregado. Assim, todas estas situações levam o
sujeito a ter que enfrentar quotidianamente o novo e reescrever a sua
trajetória de vida e a sua identidade.
Nesta perspetiva, tendo
em conta que os défices de qualificação da população portuguesa constituem um entrave
ao desenvolvimento económico, ao bem-estar social e à qualidade de vida da
população, o Instituto de Emprego e Formação Profissional, promove os cursos de
educação e formação adultos (EFA) que consistem num instrumento fundamental de
qualificação da população adulta com idade igual ou superior a 18 anos. Pois, segundo
Pires (2007:10), “a experiência é um elemento chave no processo de
aprendizagem, constituindo a base para a reflexão, problematização e formação
de conceitos, e que contribui para a transformação das pessoas, em termos pessoais
e identitários”.
Assim sendo, esta oferta
pedagógica tem como objetivo melhorar os seus níveis de escolaridade e
qualificação profissional, valorizando e promovendo uma cidadania ativa de
inclusão social e profissional, sendo ministrada em regime presencial. No
entanto, para frequentarem estes cursos os adultos devem: encontrarem-se em
situação de desemprego e consequente necessidade de reorientação profissional; querer
progredir no seu local de trabalho; querer ter condições de empregabilidade
mais abrangentes; ou intenção de dar resposta a desejos e expectativas
pessoais, de atualização, valorização e projeção.
Esta metodologia de trabalho
é diferente e única no panorama da formação, pois implica o cruzamento entre
duas componentes centrais, a formação de base e a tecnológica, diluindo
competências escolares e profissionais, reproduzindo
diligências de
intervenção nas comunidades regionais e locais.
As dinâmicas de formação dos cursos EFA são operacionalizadas com base nos Referenciais de Competências-Chave. Nesta sequência, o Catálogo Nacional de Qualificações apresenta-se como um meio fundamental para a organização destes cursos, enquanto oferta formativa de dupla certificação. Estes referenciais reforçam o padrão da valorização e validação das aprendizagens alcançadas em diversos contextos, numa perspetiva de aprendizagem ao longo da vida e sustentam que qualquer aprendizagem realizada em contexto formal ou informal, possa ser validada. Pois, como refere Unesco (2013:183), a oferta educativa deve adaptar-se às realidades, expectativas e possibilidades de participantes em cada caso, e não vice-versa.
Os cursos EFA apesar de estarem inseridos num modelo conceptual de educação e formação de adultos, podem ser de nível básico ou secundário, distinguindo-se no que respeita às características dos seus públicos-alvo, tendo estruturas e áreas curriculares de diferente natureza.
Por um lado, os cursos de nível básico estão organizados por tópicos fundamentais, sendo a componente de base composta por unidades de 25 horas ou de 50 horas conforme o nível em causa (B1, B2 e B3) a partir de áreas de competências-chave, nomeadamente: Cidadania e Empregabilidade (CE); Linguagem e Comunicação (LC); Matemática para a Vida (MV);Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC); e Língua Estrangeira (LE).
Na origem destes referenciais de competências-chave está previsto um trabalho à volta de "Temas de Vida" definidos como núcleos integradores de situações e contextos que conferem significatividade às atividades que são propostas. Estes temas são naturalmente encontrados em conjunto com os formandos, a partir das suas Histórias de Vida, enquanto método que permite enquadrar as competências nos estilos, ritmos e percursos de aprendizagem de cada um (Rodrigues, 2009:62-63).
Por sua vez, a apreciação dos temas de interesse do grupo é feita e dinamizada pelo mediador no módulo Aprender com Autonomia. Contudo, este deve ser auxiliado pelos restantes formadores da equipa formativa. Assim, os materiais didáticos de apoio à formação devem ter por base os "Temas de Vida" identificados, sendo estes associados às competências definidas pelos referenciais de formação, culminando com uma avaliação assente nesta estratégia. Esta avaliação irá desenvolver-se através de práticas de caráter fundamentalmente formativo, tendo por objetivo informar o formando do seu percurso para que este saiba as atividades superadas e as que faltam concretizar. Nesta perspetiva, a avaliação tem uma função reguladora e orientadora, isto porque informa o nível de desenvolvimento das aprendizagens e competências, sendo também uma avaliação processual, pois assenta numa observação contínua e sistemática do processo de formação, concretizada de forma qualitativa.
Por outro lado, os cursos de nível secundário
(NS) vieram dar resposta a necessidades diversificadas de formação. Estes são
constituídos por uma componente de formação de base que integra três áreas de
competências-chave: Cidadania e Profissionalidade (CP); Sociedade, Tecnologia e
Ciência (STC); e Cultura, Língua e Comunicação (CLC). Estas áreas organizam-se
por unidades de formação de curta duração (UFCD) de 50 horas cada, distribuídas
por sete Núcleos Geradores, onde o elenco é comum nas áreas de Sociedade,
Tecnologia e Ciência e a Cultura, Língua e Comunicação, dando origem à
expressão de “áreas gémeas”.
A equipa formativa, no que concerne ao EFA NS deve estabelecer relações entre as temáticas e conteúdos, fazendo uma leitura comparativa dos referenciais de cada área de competência, confrontando-a com as UFCD da formação tecnológica, estabelecendo assim uma interdependência dos conceitos a trabalhar, pautando as suas ações numa construção coletiva (Unesco, 2013:195). Além disso, a equipa tem a função central de orientar os formandos na construção do seu Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA). Neste documento, os formandos vão colocando as "provas" de um percurso feito de referências e interligações de conceitos e temáticas, sendo este construído a partir da participação entre formandos, mediador e formadores. Consequentemente, a avaliação deve resultar do balanço das competências já adquiridas e com base no Portefólio Reflexivo de Aprendizagens, sendo realizada numa sessão da área de PRA.
A equipa formativa, no que concerne ao EFA NS deve estabelecer relações entre as temáticas e conteúdos, fazendo uma leitura comparativa dos referenciais de cada área de competência, confrontando-a com as UFCD da formação tecnológica, estabelecendo assim uma interdependência dos conceitos a trabalhar, pautando as suas ações numa construção coletiva (Unesco, 2013:195). Além disso, a equipa tem a função central de orientar os formandos na construção do seu Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA). Neste documento, os formandos vão colocando as "provas" de um percurso feito de referências e interligações de conceitos e temáticas, sendo este construído a partir da participação entre formandos, mediador e formadores. Consequentemente, a avaliação deve resultar do balanço das competências já adquiridas e com base no Portefólio Reflexivo de Aprendizagens, sendo realizada numa sessão da área de PRA.
Porém, a complexidade do trabalho das equipas pedagógicas
dos cursos EFA implica a realização de reuniões da equipa pedagógica que devem
ser pelo menos mensais. Estas revestem-se de grande importância, visto que são
sessões de trabalho, servindo para planificar todas as ações conjuntas
necessárias para desenvolver a formação. Concludentemente, a equipa adaptará
todo o trabalho às especificidades do grupo de formandos, bem como às condições
da entidade formadora que organiza o curso EFA.
Com isto, o formador passou a ser um
facilitador de aprendizagem em detrimento de alguém que só transmite saberes,
estando sempre presente no processo de aprendizagem, estabelecendo um diálogo
com empatia que será representado em todas as situações em que o emissor
comunique com o recetor (Unesco, 2013:197). Por outro lado, o aprendente adulto
é considerado como alguém responsável, ativo, participante e internamente
motivado para a realização de aprendizagens.
Notas Bibliográficas
Coutinho,
C.; Krawulski, E.; Soares, P. (2007). Identidade e trabalho na contemporaneidade:
repensando articulações possíveis. Em
Psicologia & Sociedade; 19, Edição Especial 1: 29-37.
Fullan,
M. (2003), Liderar numa cultura de mudança. Porto, Edições Asa.
Loureiro, A. (2008). As organizações não-governamentais de desenvolvimento local e
sua prática educativa de adultos: uma análise no norte de Portugal.
Universidade de Trás-os-Montes
e Alto Douro.
Pires,
A. L. O. (2007). Reconhecimento e
Validação das Aprendizagens Experienciais. Uma problemática educativa. Em
Sísifo Revista de ciências da educação nº2.
Rodrigues, S.P. (2009). Guia de operacionalização de cursos de educação e
formação de adultos. Lisboa, Recursos e Dinâmicas, ANQ.
Valdés, R; et al. (2013). Aportes
conceptuales de la educación de personas jóvenes y adultas: hacia la
construcción de sentidos comunes en la diversidade. Organización de Estados
Iberoamericanos: Instituto de la UNESCO para el Aprendizaje a lo Largo de Toda
la Vida. (capitulo 9).
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